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Adeus Monte da Dor

Chegámos à última semana da nossa estadia por terras do Minho. Mas "em antes", como se diz por estas bandas, e, em jeito de despedida, vou falar um pouco deste lugar.
Montedor, um lugar de Carreço, onde conheci boa gente, embora na generalidade eu não os entenda muito bem e, provavelmente, também eles não me entendem. Mas como em todo lado, há aqui gente muito boa e que gostei muito de conhecer. É um lugar muito bonito, misterioso, cheio de contrastes, merece ser visitado e, se possível, passar alguns dias. Para quem gosta de passeios pela Natureza, aqui encontra uma enorme diversidade de percursos, paisagens, fauna, flora... Tem mar, imenso, agitado, mas também tem os seus dias de calmaria, caminhos rurais que nos levam a lugares fantásticos, percursos junto ao mar, pelo meio dos montes, moinhos, um farol...






Este Moinho, antigamente estava situado onde hoje está o farol.



O farol em dias de verão.

  
O farol em dias de inverno.

Tico o cão faroleiro. Este já foi transferido para outro farol. :0)


Margarida, a minha companheira de uma vida, que Montedor me levou. Mas ela comigo continua, nunca me deixará, nem eu a deixo. Está sempre comigo.


Montedor até uma lenda tem.

"Lenda do Monte da dor.


Era uma vez um poderoso Emir, senhor absoluto de Gaia, povoação e terras sobranceiras ao rio Douro, escuro e caudaloso, a caminho do mar próximo. 
 O Emir tinha uma irmã, chamada Aldara, que muito estimava, rodeando-a de quantas riquezas amontoara no seu palácio. Jóias, plumas, sedas, realçavam-lhe a beleza morena, sempre entregue a festas, a torneios, a banquetes, que o irmão lhe proporcionava para a saber feliz. 
 Todavia, Aldara preferia, de todos esses festejos e divertimentos, as audições de música e canto e poesia que lhe alimentavam os sonhos e devaneios. 
 E foi, numa dessas audições, surpreendida pela voz quente e melodiosa de um jovem trovador, de olhos azuis e cabelo loiro caído sobre os ombros, erguida ao som da viola, por ele próprio dedilhada.  
 A letra das suas baladas, cheias de brandos suspiros, eram de uma língua doce, estranha à princesa. 
 Decerto o donairoso trovador viera do Norte, cativo do Emir, nas suas escaramuças com os cristãos, e decerto devia a vida à perfeição da sua arte. 
 Começou Aldara a amar o desconhecido, não se cansando de lhe admirar a música e o canto. E, no coração do trovador, esse amor parecia ser correspondido. 
 Não tardaram os dois a chegar à fala, partilhando, em prolongados encontros secretos, aquela paixão impossível. Impossível? 
 Uma noite, Aldara, comprando o segredo dos seus servos e aias, escapando à vigilância dos seus guardas, correu para os braços do trovador e ambos abandonaram o palácio de Gaia, numa cavalgada apressada, a caminho de um reino cristão, onde o seu amor estivesse a salvo das leis sarracenas e da severidade do Emir. 
 Galoparam horas sem descanso e, quando o Sol enfim nasceu, encontravam-se percorrendo uma extensa veiga à beira-mar, numa região que se estendia do rio Lima até à foz do Minho, acolhedora na sua paz e na sua beleza. 
 Não ignoravam os dois enamorados que o irmão de Aldara, ao descobrir-lhes a fuga, logo chefiaria, contra eles, a força dos seus exércitos. E estes, mais velozes e afeitos a perseguições de inimigos, depressa os encontrariam, para castigo cruel. 
 Mais a mais, a veiga não tinha lugar nenhum onde pudessem ocultar-se, deixando passar, avante, os seus perseguidores. 
 Súbito, no horizonte, recortou-se o vulto de um monte frondoso, a convidá-los a encontrar, nele, repouso e abrigo. 
 Rapidamente, Aldara e o seu companheiro treparam ao monte, de onde era bem distinto o rumor das vagas a quebrarem-se de espuma, no doirado das praias. 
 Entretanto, os homens do Emir, seguindo o rasto dos enamorados, começaram, também, a trepar o monte, com grande estrondo de cavalos e armas. 
 Aldara e o trovador viram-se perdidos! E, estreitados num firme abraço, prometeram, um ao outro, morrer juntos, sem que ninguém os conseguisse apartar. 
 Ao vê-los assim, unidos, maior foi a ira do Emir, ordenando logo aos seus soldados que os separassem, disposto, no íntimo, a perdoar à irmã a leviandade da fuga. 
Mas, por mais que os soldados quisessem obedecer -lhe eras-lhes inútil o esforço de afastar Aldara dos braços do trovador! 
 Mais de cem vezes tentaram a separação. Mais de cem vezes desistiram do intento. Então, o Emir, rubro de cólera, ordenou que os dois corpos, tão fortemente enlaçados, fossem lançados às águas frias do mar revolto. Assim se fez. 
 E, como por milagre, mal receberam em si os dois desesperados, as ondas aquietaram-se bonançosas.
 Mordido pelo remorso, o Emir foi-se dali para o seu palácio de Gaia, onde passou a viver uma existência amargurada. 
 Ao monte que assistiu, mudo de pasmo, a este castigo e a este prodígio, passou o povo a chamar-lhe Monte da Dor, hoje Montedor. 
 E diz-se que, em noites de tempestade, os pescadores da costa, privados do seu ganho, ante a violência das chuvas, ventos e trovoadas, evocam as almas de Aldara e do trovador, para que lhes venham valer na tormenta. 
 Então, do profundo das águas, julgam ver emergir dois vultos enlaçados que, boiando, serenos, lhes expulsam os medos e a procela, fazendo que os seu frágeis barcos de pesca possam alcançar, docemente, o bom porto."
Fonte BiblioVIANA, António Manuel Couto Lendas do Vale do LimaPonte de Lima, Valima, Associação de Municípios do Vale do Lima, 2002 , p.19-21

Montedor é também um lugar de fantasia,  inspirador, por isso aqui nasceram as primeiras Anastácias da colecção "vamos ao circo" e as Marias da colecção " Maria vai à praia.




Muito mais haveria para contar sobre Montedor, mas deixo a vossa curiosidade trazer-vos até cá e desfrutarem deste lugar maravilhoso. 
Durante 4 anos aqui vivi, fui feliz e infeliz, um misto de sentimentos. Agora vou para outro lugar, uma nova aventura, uma nova experiência.
Até breve. Fiquem atentos.
:0)

Comentários

  1. Interessante. Obrigada por partilhares a lenda :)

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  2. que bom saber de ti nessas lindas palavras!! o farol de montedor oh aí oh ....abraço da planície aquÁtica Paula barros

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